ENCONTROS IMEDIATOS
COM PRÉDIOS

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Historicamente, os municípios surgiram como resultado da troca entre viajantes pelos caminhos e vendedores vendendo os seus produtos em bancas. Depois, as bancas se tornaram prédios e os caminhos viraram ruas, porém a troca entre quem veio e foi e os que ficaram continuou sendo o elemento chave. Prédios urbanos foram orientados aos espaços urbanos por necessidade. Desde então, muitas funções urbanas foram movidas para os interiores, e lojas, instituições e organizações cresceram. Durante o processo, prédios urbanos ficaram maiores, e correspondentemente mais introspectivos e autossuficientes.

De qualquer maneira, pedestres precisam poder andar pelas cidades, estruturas urbanas continuam sendo as paredes do espaço público, e pessoas continuam tendo encontros imediatos com prédios. O que nós queremos do andar térreo dos prédios urbanos é vastamente diferente do que queremos de outros andares. O andar térreo é onde o prédio e a cidade se encontram, onde nós moradores urbanos temos os encontros imediatos com os prédios, onde podemos tocar e ser tocados por eles.

ANDARES TÉRREOS E ARQUITETURA DE ENCONTROS IMEDIATOS

Neste contexto, os andares térreos de todos os prédios são importantes e servem a muitos propósitos, dependendo da localização do prédio, das suas funções e do espaço no entorno. A frente ou a fachada da entrada é especialmente significativa, particularmente em prédios nos quais a fachada faz frente para a rua e para a calçada. De modo geral, encontros imediatos com prédios podem ser divididos em alguns grupos principais.

Andar ao longo dos prédios. O movimento pode ser paralelo aos prédios: pessoas andam ao lado ou ao longo. O movimento pode acontecer também em ângulos perpendiculares à fachada. Pessoas chegam e vão, se aproximam, entram e saem.

De pé, sentado ou ocupado com atividades do lado dos prédios. Habitantes e usuários saem ou estão na entrada para um intervalo. Cadeiras e mesas estão colocadas ao longo da fachada onde o acesso é fácil, onde as costas dos que estão sentados são protegidas e onde há o melhor clima. Fachadas do andar térreo são lugares atraentes também para usuários urbanos que não vivem nos prédios. O ‘efeito borda’ refere-se à preferência de pessoas por ficar às bordas do espaço, onde a sua presença é mais discreta e onde elas dispõem de uma vista particularmente boa do espaço. Bordas e zonas de transição entre os prédios e os espaços urbanos se tornam o espaço natural para uma ampla variedade de atividades potenciais que ligam funções interiores com a vida na rua.

Enxergar o interior e o exterior de prédios conecta atividades visualmente. O contato visual pelos pedestres nas calçadas urbanas é próximo e pessoal, então o ritmo das oportunidades oferecidas é crucial para a riqueza da experiência do pedestre. O número de portas, janelas, recuos, colunas, as janelas das lojas, detalhes das vitrinas, letreiros das lojas e decorações é importante. (Jacobs, 1993)

EXPERIENCIAR PRÉDIOS

A arquitetura exterior é inextricavelmente ligada aos pontos de vista. Em relação à arquitetura de prédios, o que nós vemos depende de quais ângulos vemos. Como pedestres, temos que estar bem longe para ver um prédio no seu todo. Quando vemos mais de perto, temos que esticar os nossos pescoços e inclinar bastante as nossas cabeças para trás para poder enxergar todo o prédio. Poucas estruturas são desenhadas para olhar daquele ângulo. Quando chegamos mais perto, os andares mais altos gradualmente desaparecem das nossas vistas, até que nós enxergamos somente o andar térreo, ou quando estamos muito perto, somente uma parte, por exemplo, os detalhes nas portas e fachadas.

De mais perto, os nossos outros sentidos são ativados. Aqui, de muito perto, podemos ver, ouvir, cheirar e sentir todos os detalhes, não somente do andar térreo, mas muitas vezes da vitrina e do interior da loja também. Os nossos sentidos de olfato, toque e sabor são estreitamente conectados às nossas emoções. As fachadas térreas impactam emocionalmente mais do que o resto do prédio ou da rua que nós sentimos de muito mais distância e com correspondente menor intensidade. Distâncias curtas proporcionam experiências emocionalmente poderosas. Transferimos as percepções de intimidade, significado e impacto emocional dos nossos encontros com pessoas aos nossos encontros com prédios.

Enquanto a nossa percepção do espaço público depende do ponto de vista e distância, a rapidez com que nos movemos é crucial. Os nossos sentidos são desenhados para perceber e processar impressões sensoriais andando a mais ou menos 5 km por hora: ritmo de passeio. A arquitetura que incorpora detalhes de 5 km/hora combina o melhor de dois mundos: um vislumbre da torre da prefeitura ou dos morros distantes ao final da rua e o contato próximo com as fachadas do andar térreo.

Em contraste com a arquitetura ‘lenta’ está a arquitetura de 60 km/hora ao longo das ruas dominadas por veículos, onde espaços e sinais largos são necessários, sendo que motoristas e passageiros não podem perceber detalhes quando estão se movendo nessa velocidade. Essas duas escalas alimentam conflitos nas cidades modernas. Pedestres muitas vezes são forçados a andar em paisagens urbanas de 60 km/ hora, enquanto novos prédios urbanos são desenhados como prédios monótonos e estéreis de 60 km/hora em ruas tradicionais de 5 km/hora.

O IMPACTO DOS ANDARES TÉRREOS NA VIDA URBANA

Quanto mais perto chegamos dos prédios, mais percebemos e nos lembramos do conteúdo do nosso campo de visão. Quando os andares térreos são interessantes e variados, o ambiente urbano é convidativo e enriquecedor. Quando os andares térreos são fechados ou quando lhes faltam detalhes, a experiência é correspondentemente rasa e impessoal.

Estudos fornecem dados sobre muitos aspectos diferentes das ruas urbanas. As fachadas do andar térreo claramente impactam a vida pública. Em frente das fachadas ativas, os pedestres andam mais devagar, mais pessoas param, e mais atividades acontecem nos segmentos das ruas mais simpáticas, mais povoadas. Quando somamos tudo, vemos que o número de paradas e outras atividades é sete vezes maior em frente de fachadas ativas, em comparação a fachadas passivas.

Uma conclusão principal, então, é a de que fachadas fechadas, sem vida, tornam as pessoas indiferentes, enquanto fachadas abertas e interessantes ativam usuários urbanos. É importante notar que o nível de atividades na rua é quantitativo, em princípio – uma medida de quantas pessoas e quanta vida e atividade disponíveis. Porém, um nível de atividades não necessariamente indica uma melhor qualidade urbana. Não podemos somente focar em quantas pessoas andam, param, estão sentadas ou ficam em pé; é importante também ver que há um conteúdo de qualidade, prosperidade de experiências, e sim, o simples prazer de estar nas cidades.

O conhecimento sobre os fatores que influenciam positivamente a vida urbana é um instrumento importante para planejar cidades melhores. Este tipo de conhecimento inclui os argumentos mais necessários, para promover políticas para o andar térreo e para as fachadas: a variedade de experiências e o prazer completo de passear pela cidade. O que nós temos que fazer é estimular e insistir na liberdade de movimento para os pedestres nas suas próprias cidades. E a arquitetura do andar térreo tem um papel chave nesse contexto.

O DIÁLOGO ENTRE A CIDADE E O PRÉDIO

Ocasionalmente, pode ser refrescante quando um prédio não insiste numa conversa amigável com as pessoas que entram ou passam. Porém, pode ser um problema quando a falta de diálogo vire também uma prática comum nos desenhos de novos prédios. Quando os novos prédios são implantados em lugares que pessoas usam frequentemente, os prédios devem aprender a ter uma conversa significativa com os espaços urbanos e as pessoas dentro deles. Prédios e espaços urbanos devem ser vistos e tratados como um ser unificado que respira como um só. E os andares térreos, mantendo a tradição e com bons argumentos sensoriais, devem ter um desenho unicamente detalhado e acolhedor.

Boa arquitetura de encontros imediatos é vital para boas cidades.

REFERÊNCIAS

Gehl Architects (1998), Byrum and Byliv – Aker Brygge [Public Space and Public Life in Aker Brygge, in Danish], Oslo.

Gehl Architects (2000), Transparens – Kontakt mellem ude og inde, Aker Brygge [Transparency – contact between inside and outside in Aker Brygge, in Danish]

 

A.B. Jacobs (1995), Great Streets, MIT Press,
Cambridge MA

Artigo primeiramente publicado em 2006 em URBAN DESIGN International, resumido com permissão de Jan Gehl

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A ARQUITETURA DO ANDAR TÉRREO

É importante analisar funções em áreas urbanas novas e estabelecer onde a arquitetura de encontros imediatos pode ter o seu papel. Onde há as rotas para pedestres mais importantes? Quais fachadas são as mais importantes? Onde as pessoas na nova área urbana terão mais contato com os prédios? Onde e como o desenho dos novos prédios pode contribuir para a vida e a qualidade em novas áreas urbanas? A questão não é o que o novo contexto urbano pode fazer para o seu prédio, mas o que o novo prédio pode fazer para o contexto.

O principio prioritário de planejamento deve ser: primeiramente vida, depois espaço, depois prédios. Pois o primeiro passo de um projeto deve ser o estabelecimento da localização e os critérios de qualidade para os espaços públicos mais proeminentes da cidade, com base em preferências específicas a respeito do caráter e o grau de vida pública na nova parte da cidade. Pois diretrizes de desenho urbano para novos prédios podem ser formuladas (Gehl Architects 1998 & 2000). Diretrizes amostrais que podem ser usadas para o desenvolvimento de projetos:

  • Respeitar as linhas das fachadas
  • Estabelecer funções do andar térreo que convidem o público (lojas, bares,
    restaurantes e outros componentes ativos)
  • Garantir um mínimo de 10 entradas a cada 100 metros de fachada para criar vida e variação ao nível dos olhos
  • Garantir um mínimo de 4 metros de pé-direito no andar térreo para que se proporcione espaço para atividades públicas
  • Estabelecer requisitos de desenho para fachadas, bem como variação, recuos, detalhes e verticalidade.
  • Reduzir significativamente o aluguel do andar térreo, para que se garantam unidades pequenas, muitas entradas e uma mistura atraente de unidades frente aos mais importantes espaços e rotas de pedestres

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